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segunda-feira, dezembro 26, 2011

Motivos Anual (sic) para odiar a Veja - 2011

A Veja quase conseguiu passar incólume esse ano. QUASE. Fosse outros tempos, talvez eu ficasse bravo com aquela capa zoando os atores que fizeram vídeo contra Belo Monte. Talvez não, porque sempre me disseram que energia hidrelétrica é limpa (talvez não a mais limpa, mas é limpa) e possui o melhor custo-benefício. Também não é pelo Gustavo Ioshipe, ser que odeio desde a época em que escrevia na Folhateen. Tenho um entojo de yuppies.

Mas divago. Depois de divórcio e partilhas, meu pai resolveu assinar a Veja basicamente para ganhar milhas. Daí sempre que vou pra casa dele dou uma lida. Essa semana saiu uma versão extendida da revista, com as notícias da semana e com os fatos mais importantes do ano. Problemas em ambas.

Na parte semanal, o problema foi eles APOIAREM, com uma notícia favorável, a restrição ao CNJ e fazerem uma reportagem que não falava NADA DISSO. Porra, o que o CNJ faz? É um órgão administrativo feito para investigar e punir infrações administrativas dos juízes (que também são órgãos - e lembrando que a punição administrativa máxima para um juiz - e membro do Ministério Público - NÃO É A DEMISSÃO, mas a aposentadoria compulsória...). O que está sendo discutido no STF? É se o CNJ pode ou não investigar e punir os juízes sem que essa mesma investigação necessite passar pelas corregedorias dos tribunais locais - que são mais perneáveis ao corporativismo. Basicamente é uma interpretação técnica da coisa. Não há nada de "abuso de poder" por parte do CNJ nisso, como a Veja insinuou na chamada da notícia.

Outro caso relacionado ao CNJ seria a suposta quebra de sigilo fiscal dos juízes. Basicamente o seguinte: o corregedor do CNJ (sempre um Ministro do STJ) pediu ao órgão do Ministério da Fazenda que identificasse todas as movimentações financeiras suspeitas de TODAS as pessoas que trabalham no Judiciário em 2009 e 2010, desde estagiários a juízes. Detectaram algumas 2000 e poucas movimentações suspeitas (que não necessariamente é relacionada com corrupção - pode ser recebimento de herança, por exemplo). Daí cruzaram com as declarações de IR que os juízes são OBRIGADOS A PRESTAR CONTAS e encontraram 2 problemas: 1) alguns juízes simplesmente NÃO PRESTARAM CONTAS DO IMPOSTO DE RENDA (alegaram "desconhecer" o dispositivo... talvez não tenham a LICC no 'vade mecum' deles...); 2) encontraram algumas incompatibilidades mesmo entre os que prestaram contas. Mas essa investigação foi suspensa.

E algo veio à luz algo igualmente grave: alguns juízes tinham direito a receber uma bolada retroativa de auxílio-moradia (sempre passando dos R$ 100 mil, graças a uma decisão do STF - típico exemplo do que é legal, mas não é legítimo). Alguns receberam/recebem em parcelas e outros receberam DE UMA VEZ. Se todos tinham o mesmo direito (mais uma vez: legal, mas não legítimo), por que esse tratamento diferenciado?

Enfim, acho essa uma posição completamente errada da Veja em relação ao poder mais corporativista e fechado do Brasil (Executivo e Legislativo todos podem falar mal quase sem problemas, mas vá criticar um juiz para ver se você não é ameaçado de processo - o que quase sempre é derrota certa, pois será um colega que irá julgar). Tão errada quanto quando defendeu a decisão da juíza, mulher do Marco Aurélio Mello, em considerar o assassinato do índio Galdino como sendo homicídio culposo, e não doloso. Só isso já é um MOTIVO ANUAL PARA ODIAR A VEJA

Mas não foi só. Teve um problema também na retrospectiva do ano. Mais precisamente nos obtuários. Eles foram acompanhados de um comentário de uma celebridade sobre o célebre morto. Na hora do Moacyr Scliar, quem comentou foi o Luiz Fernando Veríssimo. E na legenda, estava escrito: "Luiz Fernando Veríssimo - humorista oficial do PT". PORRA, VEJA! Se fosse para desrespeitar assim o Veríssimo, por que não chamaram outra pessoa para comentar a morte do Scliar, como alguém da ABL? Ou então algum outro eminente gaúcho? Além de fazer um comentário impertinente (que o Scliar, elegante como diziam ser, não aprovaria que fosse editado junto ao seu obtuário) lembrou aquela velha Veja, a das "listas negras", aquela que espezinhou o Itamar enquanto pôde depois que ele declarou a moratória (para só dar o braço a torcer depois que ele morreu - como o fez no obtuário dele, diga-se).

Este, também, é um MOTIVO ANUAL PARA ODIAR A VEJA.

É com esses métodos e com esses pensamentos que a Veja se diz baluarte da democracia e da liberdade de expressão? Pra ficar vendo ameaças ao Estado de Direito onde não há e ficar nesse rame-rame de jornaleco de interior na hora de espezinhar os adversários, mesmo nos momentos em que não deve? Tá na hora de deixar de ser "a Carta Capital de direita" e buscar se tornar um semanário mais contundente, não marrom.

sábado, março 20, 2010

Motivo anual para odiar a Veja - 2010

Cara, eu pensei que realmente a minha transformação para a direita já tinha se completado... Até que veio a Veja dessa semana e fala: "não, Lobo! ainda podemos ser mais direita que você!". O motivo, óbvio, é a reportagem de capa, sobre a associação do assassinato do Glauco ao uso do Daime.

Antes de tudo, vai um resumo da coisa: o tal do Cadu, filho de esquizofrênica, usuário de drogas e frequentador de uma seita de Santo Daime, matou o cartunista Glauco e seu filho Raoni porque fracassou com que eles reconhecessem que o irmão mais novo de Cadu era Jesus Cristo.

Vamos à seita do Santo Daime: o conceito de "seita" dá margem a diversas interpretações, mas a que eu normalmente entendo são duas: 1) religião que ainda não atingiu o mainstream (duvido muito que os romanos, por exemplo, consideravam o cristianismo como uma religião...); 2) organização religiosa com teologia bem rasteira e rituais digamos heterodoxos em relação à sociedade dominante que, às vezes, termina em tragédia devido (Jim Jones, Waco, uma lá de Uganda, etc.). Como o '1' só dá para concluir ex post facto, o Daime está na segunda categoria.

Dá para definir o Daime como uma seita ecumênica (influenciada principalmente pelo cristianismo, umbanda, espiritismo e crenças animistas) que faz uso do chá do Daime para que seus fiéis atinjam a iluminação espiritual, ou coisa que o vale. Em suma: uma coisa hippie new age que dá um barato. Há também o fato que o chá é ministrado em crianças e em bebês, o que é um absurdo (você daria uma aspirina para seu filho assim do nada? Se você não faria isso com uma droga quase inócua, imagina com o Daime?) e só contribui com argumentos para os detratores.

O Daime é uma droga alucinógena. As drogas são classificadas, de acordo com seus efeitos, em três categorias: eufóricas (ex: cocaína, crack, anfetaminas), depressivas (ex: heróina, maconha) e alucinógenas (ex: LSD, cogumelos alucinógenos, Daime). Você já ouviu falar de alguém assassinar ou roubar outra pessoa sob efeito de maconha? Certamente que não, porque o efeito da droga é relaxante. Você já ouviu falar o mesmo sobre LSD? Também não, porque é uma droga alucinógena. Não estou dizendo que essas drogas não sejam prejudiciais! Dependendo da onda, o LSD pode fazer com que a pessoa se suicide ou então fique catatônica (ela nunca mais volta da viagem), e a maconha faz com que a pessoa fique retardada e - surpresa - esquizofrênica!

Daí voltemos ao caso: o Cadu é um cara com família problemática: o pai mora em Goiânia, a mãe é esquizofrênia, ele morava com os avós e já era um Zé Droguinha. Daí, seja como um viciado procurando ajuda, seja por curiosidade junkie, procurou o Santo Daime. Está aí a grande lição para todo o povo ligado ao Daime: como é uma "substância que altera o estado normal de consciência da pessoa" (eufemismo para droga), a pessoa que entrará para o ritual deve ter seu histórico de vida analisado para ver se ela pode usar ou não. Se o Cadu tivesse falado da sua mãe esquizofrênica e do seu uso costumaz de drogas, deviam acender a luz vermelha. Como essa coisa de seita é algo semi-amador, ele entrou, o Daime catalizou todas os estragos que as outras drogas fizeram no em seu cérebro (o termo "jogar gasolina num incêndio" usado pela Veja, nesse caso, é perfeito) e deu no que deu.

"Mas e por quê você está contra a reportagem da Veja?". Bem, em vez de fazer uma reportagem técnica, séria, alertando sobre os efeitos das drogas, abraçou a versão do pai e culpou o Daime por tudo!

1) Ignorou o fato que ele era um junkie - o que foi confirmado pelo próprio Cadu desde o dia 17 de março (quarta-feira) - E QUAIS FORAM OS EFEITOS DE TODO ESSE HISTÓRICO DE USO DE DROGAS NA CONTRIBUIÇÃO DA ESQUIZOFRENIA DELE.

2) Falou de modo en passant sobre o fato dele ser usuário costumaz de maconha, droga que COMPROVADAMENTE POTENCIALIZA A ESQUIZOFRENIA (que já era latente nele pelo fato de ter mãe e tia-avó esquizofrênicas), além de ter OMITIDO isso de forma criminosa na reportagem;

3) Não fez a associação ÓBVIA da incapacidade do Cadu em concluir alguma faculdade na vida com o uso (pelo menos) de maconha;

4) Não atentou para o fato de que o pai do Cadu foi um tremendo de um CAGÃO, tendo várias oportunidades para internar o filho e ter voltado atrás; em suma, auto-enganou-se ("ah, eu não queria repetir a história da mãe dele..."). Além disso, fechou os olhos para o perigo da relação maconha = esquizofrenia (o link da reportagem do Terra é de 2007, não sei se notaram);

5) Tentou melindrar com os seguidores do Daime, falando que tem um objetivo louvável e tal, mas se entregou no seguinte trecho: "No Brasil, em 1992, graças a uma campanha liderada por 'ayahuasqueiros', o Conselho Federal de Entorpecentes liberou o consumo do chá daimista 'para fins religiosos'. Foi o primeiro de uma sucessão de erros que culminou com a consagração do chá como "bebida sagrada", título concedido à substância alucinógena pelo estado brasileiro em janeiro passado." Concluindo pelas aspas da Veja, todos os daimistas vão lá tão-somente para ter um barato, e que esse "para fins religiosos" é só para disfarçar o real sentido do uso. Se isso não é ofender a memória do Glauco e do Raoni, não sei mais o que é ofensa.

6) A "maldade do último parágrafo", recurso já usual da Veja para contribuir para seu ponto de vista: como quem não quer nada, reduziu os seguidores do Daime a maconheiros aproveitadores.

Em suma, um crime com origem e circunstâncias bastante complexas foi reduzido a "Daime cataliza esquizofrenia e ocasiona um duplo homicído". Lembrou muito o caso do atirador do Morumbi Shopping: "estudante de medicina viciado em Duke Nukem e influenciado pelo 'Clube da Luta' entra com uma submetralhadora e mata três". Esse é meu MOTIVO ANUAL PARA ODIAR A VEJA.